sábado, 27 de dezembro de 2014

"NÃO ME DOU À DESPEDIDA"

Hoje quando li a notícia que, no meu Alentejo, uma parte dos idosos tinha fome, veio-me de imediato a memória do "Ti Maneli", que começou a trabalhar no campo com 9 anos e as suas mãos calejadas e tisnadas pelo trabalho e o calor do sol, e sem o dedo indicador direito que lhe foi cortado pela pide, quando esteve preso em Caxias. Lembro o seu olhar terno e a sua voz rouca e doce, cantando "Não me dou à despedida".
Um cante alentejano, que fala das saudades dos que de lá abalaram mas que nunca conseguem fazer a despedida daquele chão.

Cada alentejano que sai da sua terra, precisa de guardar num talêgo feito de retalhos de tecido, uma esperança de regresso.
Assim como se fosse uma permanente safra de esperanças, cuidada em cada momento das nossas vidas, até se tornarem searas de liberdade.
E nestes" talequinhos"de pano, feitos pelas nossas avós, guardamos esperanças, sonhos, ternuras, coragem, lágrimas. Tristezas acumuladas, mas principalmente a força que nos foi dada pela terra e a ternura, a coragem e a honestidade que herdamos dos mais velhos.

Hoje peguei no meu "talequinho" de retalhos de pano e, ao abri-lo, escutei dentro do meu peito este troar crescente de raios em plenas trovoadas, o fragor de mil injustiças semeadas em terra roubada a quem a cuidou, o sol a queimar-me os sentidos em plena tarde de Agosto.

E voltei a ouvir a doce voz do "Ti Maneli", desejando tanto que cada um de nós gritasse NÃO à fome dos nossos "tios Maneis" e todos cantássemos "Não me dou à despedida". Todos juntos. Pois, como bem sabem, "um alentejano na gosta de cantari sozinho."

Ester Cid
                                                              

domingo, 21 de dezembro de 2014

Sonho



Não vão ter força os pesadelos que tenho todas as noites. Porque são enormes e fortes os sonhos que tenho todos os dias.



Ester Cid
                                                                   





quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

QUERO QUE TE LEMBRES DE MIM


Quero que deixes na minha boca
as palavras que nunca me disseste
e que eu espero tanto ouvir

Quero que leias nos meus olhos
o meu poema silenciado
e que o digas a sorrir

Quero sentir que ao partires
te vás lembrar de mim
com um terno e doce sorriso

Quero que te lembres de mim

como um poema perfeito
uma pintura de Rafael
como aquele livro inesquecível

Quero que te lembres de mim

ouvindo
a nossa musica preferida
no aconchego de uma lareira

Quero que te lembres de mim

como uma brisa de vento
como chuva a beijar-te o rosto
como um olhar abraçando

Quero que te lembres de mim

como uma estrela cintilante
mesmo que não seja para ti brilhante

Quero que te lembres de mim

como lua cheia
mesmo que me sintas quarto minguante

quero que te lembres de mim

como uma flor que canta
nos campos solitários
do meu Alentejo

pois o sofrimento é maior se sentir
quando te fores embora
que não me guardas em ti.

Ester Cid

(ao abrigo do código do autor)
Imagem:Google                                        
                                                                   








                                                                 

sábado, 6 de dezembro de 2014

Ribeira doce

Aquela ribeira doce e mansa que corre entre pequenos montes, entalada por pedras grandes e surdas, extensa e solitária planície alentejana, sonhou um dia conhecer o mar.
Abraçou as terras secas e gretadas pelo sol, cantou com as cotovias um belo cântico que suavizava a vida das gentes que trabalhavam as terras, dançou alegremente com o vento, confidenciou o seu sonho à chuva e correu sem cansaço para o concretizar.
Mas - há sempre um mas na vida das belas ribeiras que sonham conhecer o mar - a ribeira cresceu com a cumplicidade da chuva e encontrou rios que quiseram ser seus donos, que lhe apertaram os contornos do sonho e a encheram de lágrimas que salgaram a sua doce água (as ribeiras não nascem para ter donos).
A ribeira começou a perder a doçura e a mansidão, perdeu as forças e o Norte, começou a secar lentamente nas terras gretadas e secas pelo sol. Mas todas as noites confidencia às estrelas e à lua que não vai morrer sem conhecer o mar.


Ester Cid

(ao abrigo do código do autor)
imagem:Google.
                                                                             

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

OLHAR PARADO.

Assola-me
o
medo
da
solidão
.
Nos
olhos
parados
de
uma
mulher
.
Sentada
ao
sol
da
escuridão
.
Assola-me
o
medo
da
solidão
.
Nos
olhos
parados
De
um
idoso
.
Que
(vive)
.
sem
ilusão
De
viver



Ester  Cid
“A Carruagem de Terceira Classe” – Honoré Daumier

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Cumplicidades

Sempre gostei de caminhar à chuva
a chuva foi minha cúmplice e companheira
nos momentos de dor
juntou as suas gotas cristalinas com as minhas lágrimas
chorando juntas

o sol espreitou o nosso caminhar

e ouvi a chuva dizer ao sol
a minha amiga está a trocar-me pela neve
respondendo o sol, não a conheço
nunca nos demos bem
a branca neve entrou na conversa
e disse-lhes
senhora chuva e senhor sol
não sei o que se passa com a nossa poeta
hoje nem quase me olhou
dançava e cantava
com o senhor vento

sorri à chuva
acariciei a neve
o sol fraco e envergonhado
juntou-se timidamente a nós
e rindo dançamos com o vento
uma doce música
como se voássemos

Ester Cid.


Fotografia: Google
                                           

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Laço



imaginar o teu olhar
que se perde no rio
encontrar dentro desse olhar
o que desejo
(e)
no meu ventre
que incendeias
como quem prende o fogo
e se desprende
num laço que me enlaça
sem ser nó

sabe o meu corpo e sabe o teu
que laço é coisa que gostamos

(e)

porque nós, são amarras e não laços

laço não aperta e não é nó
sabe o meu corpo e sabe o teu
dar aquele laço e ser um só

Ester Cid

(ao abrigo do código do autor)

fotografia:Google                                              
                                                                           

sábado, 8 de novembro de 2014

MÃOS



Hoje

levantei o braço

o punho cerrei e Avante cantei

hoje

plantei flores ao meu jeito

para colher amores perfeitos

hoje

escrevi um poema de esperança

num amanhã de mudança

hoje

dei a mão á minha moda

com as crianças dancei as nossas canções de roda

hoje

bordei o vestido para a minha neta Maria

com o pensamento feliz de lho ver vestido um dia

hoje

com as minhas mãos aliviei as dores de costas do senhor João

mesmo sabendo que amanhã

quando eu ao lar voltar

ele me diga que não

e nem de mim se lembrar

hoje

abri as minhas mãos para num bebé pegar

e gostei do que senti

quando deixou de chorar

hoje

com as minhas mãos ajudei -te amiga a caminhar

hoje

quem me fez companhia e me aconchegou o coração

viu um cravo vermelho florir na minha mão


são tantas as coisas

tantas... que eu faço e posso fazer com as minhas mãos

hoje

não senti solidão

nem as mãos vazias e frias

bastou para isso que eu deixasse de querer as tuas mãos

sem as ter

e aprender o que fazer com as minhas

Ester Cid

(ao abrigo do código do direito de autor)

Imagem: Google
                                                                     












                                                                                                              

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Tempo de Revolução

Tempo de revolução
tempo
de dor
tempo
de perda
e de desamor
tempo
de prisão
tempo
sempre... o tempo
tempo
depois do adeus
tempo
de vila morena
tempo
de liberdade
tempo
de revolução
tempo
sempre... o tempo
tempo
de não te ver sorrir
tempo
de não ter tempo
de viver Abril
tempo
de não ter tempo
de te abraçar
tempo
de não ter tempo
de não chegar a tempo
e a revolução passar
tempo
de não chegar
tempo
e tu camarada
não esperares

Ester Cid 
Fotografia de Emanuel Pereira Aparício Ribeiro


sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Se o meu corpo fosse um rio



Se o meu corpo fosse um rio
caravela fosses tu
mastros mãos entrelaçadas
navegando em corpo nu

Se o meu corpo fosse um rio
que se transformasse em (a)mar
(a)braços de mil marés
tenebrosas tempestades
numa noite sem luar

Se o meu corpo fosse um rio
azul casado com céu
teus lábios seriam pássaros
voando no corpo meu

Se o meu corpo fosse um rio
Deserto de águas sem fim
onde fosses naufragar
para emergires em mim.

Se o meu corpo fosse um rio
se navegasses em mim.


Ester Cid

Fotografia :Google

                                                                                       

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Silêncio



Este silêncio feito de gritos, que todos nós alentejanos, trazemos dentro do peito. Este silêncio feito de gritos, que tanto nos dói.

Até onde irá a nossa resistência?

Temos um céu para voarmos por cima do rio, mas o nosso voo é de um pássaro ferido em plena Primavera.

As searas de trigo já não esperam por nós,os espantalhos laranjas apertam-nos as gargantas querendo calar o nosso cante.

E neste silêncio feito de gritos, esperam-nos sementeiras de esperanças e de sonhos por abrir.




Ester Cid
                                                                           

                                                                   

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

SALPICOS DE MAR



Naquele madrugar
depois
do meu olhar se perder
no horizonte acompanhando o mar
sentei-me na praia
como gaivota que espera voar

e ao invés de cantar como a gaivota
chorei
chorar não polui o mar
pois toda aquela água
são lágrimas de gente que ama sem ser amado
se eu tivesse aprendido a nadar
o mar seria perfeito
mas quando o meu olhar se perde
no horizonte acompanhando o mar
e tu mar me vens beijar
sinto mar que és a minha praia.

Ester Cid


Fotografia: Google

                                                                       

                                                                                 

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Outubro


Duas folhas amarelecidas

de cores outonais

num bailado com o vento

dançam juntas

vendo que estou só
sentada num banco de jardim

convidam-me a juntar
à sua dança

fazem-me sorrir
rodopiar
e nesse bailado outonal
fomos esperança
ternura
fomos abraço
paixão
fomos Primavera
noite de ilusão
estrelas, sol,luar
Madrugar
canção de roda

(e)
risos de criança.

Ester Cid

Imagem :Google                                                              

domingo, 21 de setembro de 2014

Vidas... Na minha vida


Existem pessoas que passaram pela minha vida,que ao partirem me deixaram vazia,outras ainda que não partem nunca, mesmo indo embora da minha vida.
São estas pessoas que me fazem sentir a diferença, entre estar só e sentir-me sozinha.

Ester Cid

                                                           

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Há palavras



Há palavras que pesam como pedras
Guardadas dentro de nós
roubam-nos as forças para caminhar
secam-nos os lábios, deixam-nos sem brilho no olhar
apertam-nos a garganta
fazem doer o coração
e transpirar as mãos
São como pássaros que nunca voam
e só por nós são escutadas.


Ester Cid

Fotografia Google 

                                                                               

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

SUAVE




Porque

por vezes
as minhas palavras

não são tão suaves
aos teus ouvidos
quanto o silencio

"deito-me"
sobre
o papel

e
escrevo
escrevo

sobrando-me
tanta coisa
e
faltando-me
a
ternura
do
teu (a)braço.


Ester Cid



Imagem: Google

                                                       

sábado, 30 de agosto de 2014

Ouves a chuva



Ouves a chuva e não dizes nada
ouves a chuva e já madrugada
escreves razões esperanças também
inventas abraços não sentes ninguém

escrever sem parar
num querer e não querer
nesse coração tanto por dizer
sentes a chuva e não dizes nada
cama ainda feita e é já madrugada

inventas beijos nas palavras certas
ouves gargalhadas nas ruas desertas
há tudo em ti em troca de nada
choras com a chuva e é já madrugada

ouves a chuva e não dizes nada
gritos calados em porta fechada
noite sem dormir inventando o amor
acordas o dia com sorriso em flor


Ester Cid

(ao abrigo do código do autor)
Fotografia:Google
                                                                     


quarta-feira, 20 de agosto de 2014

voos



Conheço o cantar dos pássaros

sei quando o canto é da cotovia

do melro ou do rouxinol

que há pássaros só cantam quando anoitece

outros ao nascer do sol

(e)

rompe o nascer do dia

mas neste caminho em que semeei palavras

(e)

só colhi silêncios

existe um pássaro dentro de mim

que silenciou seu cantar

este pássaro solidão tem asas e quer voar.


Ester Cid 

Fotografia:Google
                                                                                     


                                                                         




quarta-feira, 13 de agosto de 2014

METADES



Não quero
metade
de
nada

Não quero
meios abraços

não quero
meios afagos

não quero
meios sorrisos

não quero
meias verdades

metade
é
meias tintas

não quero
meias tintas

estou-me
nas tintas
para as metades

porque afagos
verdades
carinhos
abraços
beijos

só existem
se forem
completos
inteiros

e nos afectos
eu dou-me
inteira

Ester Cid

(ao abrigo do código do direito de autor)


VITÓRIA DA SAMOTRÁCIA – século II a.C.














sábado, 9 de agosto de 2014

A MENINA

A
menina
tinha todos os sonhos do mundo
aqueles sonhos
inofensivos
como só as meninas/os

sabem sonhar

o avô ensinou-a
a ser solidária

com um sentido
tão profundo
que a menina
aprendeu

como é importante
sonhar
como é importante
dar
como é importante
ser livre
como é importante
lutar
pelo o que acreditamos

o tempo passou e a menina cresceu
como só as meninas/os
sabem crescer


de repente
o mundo apertou-lhe
os contornos
do sonho
e
pela primeira vez
sentiu
a angustia de um não

ficou assustada
até submissa
e viveu anos a fio
o que nunca sonhou

numa madrugada
num gesto suicida
disse para ela
não quero
esta vida

e para seu espanto
a garganta gritou
com alegria
sem pranto

desafio
quem
me
queira
matar
ou
tirar
os sonhos

são meus

herança
do
meu avô

não me matam os sonhos
porque eu não deixo.

Ester Cid.
(ao abrigo do código do direito de autor)
Pintura: Frida Kahlo "O Marximo Dará saúde aos Doentes" 



                                                                               

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Mulher I



Não te deixaram dormir e tu sonhaste acordada
roubaram-te o sorriso e tu inventaste outro
gritaram-te ofensas e tu ensurdeceste
ordenaram que te calasses e tu escreveste
roubaram-te a Liberdade e tu lutaste
bateram-te e tu não deste a outra face
prenderam-te e tu saíste da "prisão"

uma criança sorriu-te e tu choraste.

Ester Cid

Fotografia :Google 

                                                                       

terça-feira, 29 de julho de 2014

Mãe...Minha

Como ninguém
a minha mãe dividia afectos
multiplicava colo(s)
diminuía lágrimas
somava sorrisos
subtraia tristezas

(e)

ensinou-nos como ninguém
a amar
a sua matemática

Ester Cid

(ao abrigo do código do autor) 

Fotografia: Eu, a amamentar a minha filha Patricia.

                                                                           

sábado, 26 de julho de 2014

VEM


Vem
sem pressas
toma-me
por inteira

passeia
lentamente
sobre mim
como doce
vento

na
minha
doçura
deixa
os teus
tormentos

toma-me
por inteira
completa-me
(e)
em
mim
adormece
suavemente

Ester Cid

(ao abrigo do código do autor)

Fotografia :José Frade
                                                                   






quarta-feira, 23 de julho de 2014

PONTES




Pontes de madeira
de ferro de pedra
provisórias romanas
de corda
para durarem dias
ou eternamente
feitas por maquinas
ou pelas mãos da gente

pontes de amor
que no fazem caminhar
até ao céu , tocar as estrelas
que nos fazem sentir na lua
que atenuam a dor
da saudade
que te fazem chegar a mim
para me fazeres sentir tua

pontes de amor e de amizade
pontes assentes em pilares
de camaradagem
pontes que aquentam tempestades
pontes que por vezes interrompemos
a caminhada
ficando a saudade
no coração guardada

pontes com pilares de sorrisos compreensão
de desacordo cumplicidades
partilhas e tarefas repartidas
histórias de luta e de vidas

pontes que são o nosso porto de abrigo
pontes que nos levam ao abraço do amigo

pontes...pontes... sempre pontes.
adoro pontes

daquelas pontes fortes
por serem construídas colectivamente
conseguem destruir muros
pontes feitas pela nossa gente

pontes de caminho indestrutível
pontes de luta sonho verdade e doçura
pontes dos afectos
amor  e ternura

Ester Cid  
Fotografia: Ponte Romana (Monforte Alto Alentejo)                                                                                 

                                                                                                         

Pedido

Garanto-te que não vou viver de braços cruzados, mas não me deixes morrer de braços abertos.

Ester Cid

                                                                 

terça-feira, 22 de julho de 2014

Nu jasmim

Despes-me
e
nesse nu jasmim
as
borboletas
que pairam no teu olhar
percorrem-me o corpo
numa busca certa do que é incerto

sonho consentido
entrega de dois corpos
um raio de lua perdido

oásis em seco deserto
mares agitados de prazer

chuva fria aquecida
com o teu corpo no meu

onde dentro me lavras
planícies semeadas
em campos férteis da tua seiva
em melodia de ventos
que me percorrem
suspiros
de orgasmos

neste acordar prometido
maior do que a madrugada.

Ester Cid.
                                            Pintura:Renata Brzozowska           

segunda-feira, 21 de julho de 2014

ADORO



esse teu sorriso
que me embaraça
esses lábios que me sorriem

essa boca que me espera
transformar a noite uma quimera
quando sonho beijar a tua boca primavera

adoro

essa tua boca poema
dos meus sonhos

que digo a cantar
de olhos fechados

poemas de desejo
do teu (a)mar

(e)

que quero sentir
quando acordado

saudade que desespera
quando anseio ter-te ao meu lado

adoro
esse teu olhar esquivo
quando me apanham furtivamente
a mirar-te

adoro
esse teu olhar
da cor dos teus poemas
onde existem mil silêncios guardados
rios de tristeza e alegria

adoro
as nossas mãos que se entrelaçam
com laços madressilva e jasmim
transformas o meu corpo sol de inverno
com a poesia vais deixando em mim.

Ester Cid 

(ao abrigo do código do autor)
fotografia:google 

                                                                               

                                         

quarta-feira, 16 de julho de 2014

GOSTO


Gosto quando te aninhas mansamente
nas montanhas sinuosas
dos meus seios
(e )
no meu ventre
ninho
voas como um pássaro
(e)
corres como um rio.

Ester Cid.
(ao abrigo do código do autor)

                                                                       







                                                                  

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Guarda os poemas que te dei



Guarda os poemas que te dei

como se fossem cravos vermelhos

revolucionando apaixonadamente o teu sentir

como se fossem papoilas rubras

dançando ternamente no teu coração

como se fossem gotas de chuva

acalmando o que te inquieta

Guarda os poemas que te dei

como se fossem pedaços de lua e estrelas

sol da manhã,madrugadas

guarda na tua mão a minha dorida mão

e trás de volta o teu olhar

que me fez escrever

os poemas que te dei.

Ester Cid

(ao abrigo do código do autor)
Fotografia: Google
                                                           
                                                                

quarta-feira, 2 de julho de 2014

CATARINA





Alentejo... meu amor

nasceu em ti a ceifeira

que no ventre tinha vida colhida na sementeira


tingiu os campos de sangue
a ceifeira e camarada

nasceram rubras papoilas
num campo sem pão sem nada

gritando por liberdade urgente revolução
searas de dor suor esperança amor e coração

Alentejo semeado

com sementes de paixão
fazendo searas mil com a força da razão

Meu Alentejo sonhado.


Ester Cid


(ao abrigo do código do autor)
Gravura de José Dias Coelho - morte de Catarina Eufémia 

                                                                                

terça-feira, 24 de junho de 2014

Chuva na madrugada


Ouves a chuva e não dizes nada
ouves a chuva e já madrugada
escreves razões esperanças também
inventas abraços não sentes ninguém

escrever sem parar
num querer e não querer
nesse coração tanto por dizer
sentes a chuva e não dizes nada
cama ainda feita e é já madrugada

inventas beijos nas palavras certas
ouves gargalhadas nas ruas desertas
há tudo em ti em troca de nada
choras com a chuva e é já madrugada

ouves a chuva e não dizes nada
gritos calados em porta fechada
noite sem dormir inventando o amor
acordas o dia com sorriso em flor

Ester Cid

(ao abrigo do código do autor)
Fotografia:Google

                                                                             






quinta-feira, 19 de junho de 2014

VOOS



Somos como os pássaros
fazemos voos
com e sem regresso

temos ninhos de afecto que nos aninham

ninhos desfeitos
onde morreu o amor
que nos fazem sentir vontade de mudança
pássaros feridos com penas sem cor

asas no olhar e voos de esperança
quando nos aninham a nossa dor

voamos em bando como pássaros daninhos
ou como pássaros raros sozinhos

choramos à noite coruja
quando atacados por abutres noturnos

como a cotovia e o rouxinol
cantamos voamos ao nascer do sol

todos conhecemos gaiolas e grades
voos reprimidos e sem liberdade

uns morremos por ter medo
(e)
outros com medo de perder o medo

Ester Cid



(ao abrigo do código do autor)
Fotografia:São Nunes
                                                                       

segunda-feira, 5 de maio de 2014

"Dia mundial do beijo



Aprendi que pouco tempo é muito

quando estamos longe

dos (a)braços que nos abraçam

do olhar que nos beija

Então...

Aprendi a brincar ao faz de conta

(e)

os meus lábios encontram os teus

na água do rio

Ester Cid 
                     
(ao abrigo do código do autor)                                                               

sábado, 3 de maio de 2014

se não me souberes amar

Se não me souberes amar
como a inquietude do vento que desarruma as folhas secas

como um vulcão em erupção
derramando a sua lava em terras que ficarão férteis

como uma enorme tempestade
que troveja e inunda as cidades e os campos

como a banda musical
que marcha pelas ruas acordando toda a Aldeia

se não me souberes amar
gritando todos os hinos de liberdade e alegria

guarda-me dentro de ti, e abraça-me todos as noites em silêncio.

Ester Cid.
(ao abrigo do código do autor)
11/03/2014
Imagem:Google

                                                                                     


terça-feira, 29 de abril de 2014

NÃO FINJAS.

Não finjas amar uma mulher que gosta de ler e ama escrever
não finjas amá-la se não consegues estar a seu lado
abraça-la nas madrugadas de silêncio e palavras

não finjas amar uma mulher que gosta de ler e ama escrever

vais sempre encontrá-la
numa loja de livros em segunda mão
não consegue entrar lá
sem acariciar os livros
e cheirar as suas páginas amarelecidas

vais sempre encontrá-la à beira do rio
no aroma das flores do campo
no riso das crianças
no sabor de um morango
num museu
na pintura do tal quadro
nas tuas viagens
na tua musica preferida
no "hino Avante"
descendo a avenida da/em liberdade
no vento que passa
nas estrelas que brilham
nas ruas da cidade
no chilrear dos passarinhos
no voo das andorinhas
na lua feiticeira
na chuva miudinha
na tempestade
no arco-íris
no anoitecer
nas madrugadas
nos teus lábios
na tua boca
nas tuas mãos
no teu olhar
quando te olhas
no teu corpo
no teu sentir

Não finjas amar uma mulher que gosta de ler e ama escrever
porque corres o risco de ela se tornar o teu livro favorito.

Ester Cid.
Fotografia: Mário Vasa
                                                                         

                                                                

sexta-feira, 25 de abril de 2014

CHEGASTE ABRIL




Chegaste nos braços de corações generosos

no olhar de liberdade de quem preso estava


Chegaste em lábios e bandeiras rubras

chegaste numa mão aberta de ternura

num punho cerrado firme

(e)

escondido no teu bolso em tempos de ditadura

chegaste nas vozes de poetas e cantores

nas flores no mar no riso das crianças

no jovem e no idoso que não deixou morrer a esperança

chegaste nos livros fechados que abriste

em hinos que sufocavam gargantas e prendiam vozes

chegaste por acres de trigais

no canto das rolas, cotovias e daninhos pardais

chegaste no aroma do rosmaninho da giesta da alfazema e do jasmim

chegaste com os camaradas

soldados, mineiros, abegões, ceifeiras e carpinteiros

chegaste às cidades aldeias e vilas morena em cravos vermelhos mil

chegaste depois do adeus

em olhares regresso

chegaste Abril, meu amor

Abril

Abril

Abril

Existe agora

mais de vinte cinco mil razões para contigo fazer amor

(e)

nunca mais te deixar partir.


Ester Cid.

Abril 2014
Fotografia: Google

                                                              

RIO HUMANO

De repente a alegria

ruas praças
transformam-se num rio humano
todos correndo na mesma direcção
como uma doce magia
como se todos tivéssemos um só coração

Tantas mãos, de onde surgem tantas mãos?
mãos que a pouco e pouco
se vão transformando em punhos erguidos
aqui agora tudo faz sentido

a alegria surge de novo
bandeiras e cravos vermelhos
palavras guardadas
no coração do povo
fazem o silêncio estremecer

amigo camarada liberdade Paz Abril Povo

Ester Cid

Fotografia:José Frade
                                                                        


domingo, 20 de abril de 2014

Cravos vermelhos de Abril



São laços que libertam
amarras que se desprendem
grades que se abrem
barcos que chegam
vozes caladas que gritam
punhos cerrados que se erguem
lábios unidos num beijo

São mãos dadas de vontade
Primaveras que florescem
ruas desertas que se enchem
terra fecunda que dá flor
searas que dançam ao vento
risos de crianças mil
corpos que fazem amor
abraços ternos de Abril

São poemas de Ary
Com desenhos de Cunhal
que nasceram na prisão
sempre à espera doutro alguém
canções do Zeca
trás outro amigo também
livros que estavam escondidos
lidos agora na rua
bandeiras rubras guardadas
dançando na nova lua

São o hino de Caxias
olhar doce de ternura
camaradas que partiram
em tempo de ditadura
esperanças e alegrias
sol brilhante da manhã
soldados marinheiros
mineiros camponeses
estivadores e pedreiros

Cravos vermelhos de Abril
erguidos em cada mão
guardiões da liberdade
defensores da Revolução

Poema : Ester Cid

Madrugada de Abril 2014
(ao abrigo do código do autor)
Fotografia: Cravo de Abril da autoria de Adelino Chapa e Paulo Curto Baptista
                                                                         


ABRIL

Ser causa do teu sorriso
companheiro camarada
esperar a tua semente
na minha terra lavrada
ser grito em campo vermelho
aurora amanhecer
amor pela liberdade
poema para tu dizeres
esperança revolução
portas abertas de Abril
Maio vermelho cravo primavera
chuva miudinha de verão
(a)braços à tua espera

Ester Cid

Fotografia: Google
                                                                    

sexta-feira, 18 de abril de 2014

URGENTE

É urgente
não deixar partir o que está prestes a dizer adeus

é urgente
semear cravos em terra morena de fraternidade

é urgente
ouvir o mar e os poetas não silenciar

é urgente
o sol brilhar em cada olhar de chuva

é urgente
dar colo a todas as crianças

é urgente
cantar mil vezes Abril revolução

é urgente
tomar a liberdade como primeira condição

Ester Cid.
(ao abrigo do código do autor)
Fotografia: José Maria Frade


                                                                   




Fotografia: José Maria Frade.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Camarada Irmão Amigo

Não deixes de lutar pela liberdade
semeia vermelhos cravos mil
continua a luta camarada
não deixes que te colham as vontades
e nos Invernos agrestes da jornada
inventa primaveras por Abril

Ester Cid
Fotografia da autoria de José Gema

                                                                       

sexta-feira, 28 de março de 2014

NÁUFRAGO



A sereia cantou e encantou-o

levou-o ao fundo do mar

mostrou-lhe os corais
as ostras de pérolas raras
(e)
ao emergirem beijou-o

Junto das rochas
os golfinhos cantavam de felicidade

saindo da água
estenderam-se na areia branca da praia
enquanto a sereia alegre e docemente
lhe cantava um cântico de embalar
afagava os cabelos
(e)
lhe beijava docemente os lábios
deixando na sua pele
o aroma do mar

o náufrago adormeceu
(e)
sonhou como há muito tempo não sonhava

sonho de
Luas perdidas, esquecidas
encantadas, sentidas
sereias transformadas
embaladas pelas ondas do mar

transformou a sua sereia em princesa
beijou-lhe os pés
enquanto lhe calçava uns sapatos de lua
beijou-lhe os seios
ao mesmo tempo que a vestia de céu
(e)
dançaram e riram sem tempo

ao despertar
o náufrago sentiu ser
possível escapar
do canto da sua sereia

mas do seu silêncio
por certo jamais

(e)

todas as noites
lê poemas de mar
para a sentir no seu céu da boca

Ester Cid.
Madrugada de 15/03/2014

      
Pintura: O Pescador e a Sereia - Lord Frederick Leighton.                                                      

quinta-feira, 13 de março de 2014

INESQUECÍVEL



Inesquecível

tu

mesmo longe
penetraste em mim
com a delicadeza
de uma flor

inesquecível

tu

mesmo longe
penetraste em mim
com a ternura
de um olhar

inesquecível

tu

mesmo longe
penetraste na mulher das palavras
com silêncios

inesquecível

tu

mesmo longe
penetraste em mim

(e)

entrando
nos meus sentidos
em todos os meus poros
ficares em mim
como um gemido

inesquecível

tu

mesmo longe
penetraste em mim
como um poema por terminar
como uma canção de amor
por cantar

incrível
tu
mesmo longe
teres em mim penetrado

inesquecível
é como
tu
ficarás em mim

mesmo
que o meu corpo
nunca o tenhas
penetrado.

Ester Cid
(ao abrigo do código do autor)
imagem:Google

                                                                 

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

O RELÓGIO DO MEU AVÔ

Quando raramente coloco (tenho medo de o perder) um fio de ouro, que tendo pertencido à minha bisavó, á minha avô, de quem também herdei o nome Ester e à minha mãe, pelos meus 14 anos veio parar a mim. Lembro-me de o meu avô materno olhar para mim com o olhar enternecido e orgulhoso, como se eu, com aquele minúsculo fio de ouro, trouxesse todas as mulheres da família ao seu olhar.


Lembro-me da cumplicidade que me unia ao meu avô em cada livro lido e explicado com a paciência que só os avós sabem ter, dos discos de vinil ouvidos em segredo à hora da sesta e de seguida guardados no baú dos segredos partilhados entre mim e o meu avô. Lembro-me de eu e o meu avó nos zangarmos por causa de um relógio de parede a que ele dava corda e gostava de ouvir dar horas ruidosamente e que eu detestava ouvir. Ainda por cima, aquele relógio dava também os quartos de hora.


Consegui entrar num acordo com o meu avô e o relógio de parede que se encontrava na sala era parado pelo meu avô, segurando o pêndulo do relógio até ele deixar de fazer aquele barulho, que para mim me parecia o barulho de um coração angustiado, todas as noites antes de jantar o relógio era silenciado e só voltava a "pulsar" depois de eu sair para as aulas.


Este ano, no último dia da Festa do Avante, apeteceu-me colocar ao pescoço o minúsculo fio de ouro. Senti que neste gesto levei todas as mulheres da minha família à Festa, lembrei o "pulsar" do relógio de parede, veio-me à memória as conversas entre mim e o meu avô, os seus sonhos de viver num país de liberdade. Senti que estava na hora de passar para a minha filha este legado das mulheres da família. Pensei em como seria bom ter o meu avô aqui neste deslumbramento de Festa da liberdade e da fraternidade, como gostava que ele soubesse que o jornal, que ele tantas vezes escondeu no baú, tinha uma Festa com o seu nome AVANTE.


Parece que neste parar de horas eu inconscientemente queria que o tempo parasse para agora o ter aqui comigo. E não é que senti tantas... mas tantas saudades de ouvir o barulhento relógio do meu avô "pulsar" novamente depois de o meu avô lhe dar corda.

Ester Cid
Festa do Avante 2011
                                                     

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

BATOTA BOA

Hoje
resolvi fazer o jogo "batota boa"
não faças caso
coisas tontas de "poeta" tonta
que por vezes resultam
e me fazem bem ao coração

então
fechei os olhos
aconcheguei-me nas lembranças
vividas

e
muito ternamente
comecei a "colar-te"
nos momentos da minha vida

com "batota"

estás sentado comigo
no banco da escolinha
e dividimos o nosso lanche

estás comigo 
na descoberta
do primeiro beijo

estás comigo
quando sofri
a primeira desilusão

estás comigo 
na primeira
manifestação de Abril

estás comigo
no dia do meu casamento

estás comigo
quando fui mãe
pela primeira vez
e perdi o meu filho
no parto 

estás comigo
quando feliz
me fui inscrever
no nosso
partido

estás comigo
quando mãe
pela segunda vez fui 

e me senti
a mulher
mais completa
e realizada
do mundo

estás comigo
quando escrevo 
o primeiro poema

estás comigo
quando festejo o 1º de Maio
em liberdade

estás comigo
quando fui operada

acalmas o meu medo

estás comigo
quando
desesperadamente só
caminho à chuva
de que tanto gosto

Estou com sono
não quero jogar mais

Porque será 
que  as coisas boas
chegam sempre

tardiamente
à minha vida

Ester Cid 
imagem. Google